Pensatas

Tornozeleira eletrônica, ferro de solda e memes: coprodutores de um fim político tragicômico

Pensata 404 – Edição 14 – por Dalvacir Andrade

Nossas pensatas são discutidas no Lab 404, mas refletem a opinião pessoal.


O sábado (22.11.25) em que a tornozeleira eletrônica de Jair Bolsonaro apareceu violada num vídeo oficial terminou em um “carnaval de memes“. Em poucas horas, feeds em diferentes plataformas foram tomados por montagens que exibiam o ex-presidente de máscara de solda, segurando um ferro barato, cercado por piadas sobre fuga, golpe e karma.

FOTO: REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS

No vídeo anexado ao processo e tornado público, Bolsonaro admite a uma agente que passou um ferro de solda na tornozeleira “por curiosidade”. O equipamento aparece com marcas de derretimento por calor visíveis ao redor de toda a superfície. Laudos e relatórios técnicos indicam a tentativa de violação, e o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal) responde decretando a prisão preventiva por risco de fuga e ameaça à ordem pública.

Há algo de profundamente contemporâneo no fato de um momento limite da trajetória de um ex-presidente ser imediatamente traduzido em memes. Além da própria “internet sendo a internet”, temos aqui a própria controvérsia política a ser redistribuída em forma de piada, templates, stickers de WhatsApp e vídeos curtos.

FOTO: REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS

No Brasil, a apropriação de memes na disputa política deixou de ser ruído para se tornar parte da própria gramática de participação, propaganda e enquadramento. Estudos já descreveram tanto a “febre dos memes de política” quanto propostas metodológicas para analisá-los (Chagas, 2017; 2018), em diálogo com abordagens mais amplas sobre memes como participação política (Shifman, 2014).

E o que esses memes fazem, se olharmos o episódio a partir de uma perspectiva neomaterialista? Para entender, precisamos olhar para os elementos que compõem a rede em ação.

A tornozeleira eletrônica, por exemplo, é um objeto banalizado na crônica policial, mas aqui ela ocupa o centro da cena, uma vez que mede deslocamentos, registra violações, aciona alarmes, gera relatórios que circulam entre a SEAPE, a Polícia Federal e o STF. Quando é violada, ela age desencadeando uma cadeia de decisões jurídicas, operações policiais, coberturas midiáticas e, no caso em questão, uma enxurrada de memes.

O ferro de solda, por sua vez, condensa uma certa cultura da gambiarra masculina: o gesto de “abrir para ver como funciona”, típico do bricolador que confia mais na sua habilidade manual do que na técnica institucionalizada. Mas aqui a gambiarra é aplicada ao dispositivo que materializa a punição. A imagem do ex-presidente queimando o próprio monitor digital, seja por “curiosidade”, por paranoia ou por tentativa de fuga, implode a aura do controle racional e revela uma cena quase doméstica, patética.

Não se trata de perguntar o que Bolsonaro quis fazer, mas de olhar para o tipo de rede que se torna visível quanto a tornozeleira é exposta ao calor do ferro e ao sabor dos memes. Temos o dispositivo técnico (tornozeleira + software de monitoramento); as instituições (SEAPE/DF, Polícia Federal, STF); o próprio Bolsonaro, com seus afetos, medos e estratégias; o ambiente político e seus atores (aliados, opositores, familiares, partidos, parlamentares, imprensa, influenciadores, etc.); a narrativa da fuga que intensifica a controvérsia ao mesmo tempo em que fragiliza e ridiculariza publicamente a sua base de apoio; as infraestruturas de plataformas (servidores, algoritmos, interfaces); a cultura memética que rapidamente captura, recorta e redistribui a controvérsia; e assim por diante, já que a rede se reconfigura em tempo real.

Nesse sentido, os memes funcionam também como coprodutores do acontecimento. Ao recortar certas imagens, ao colocá-las em determinadas montagens e ao articulá-las com frases de escárnio ou alívio, os memes dão forma aos sentidos predominantes daquele episódio: ridículo, castigo, fim de ciclo, justiça tardia. Veículos de notícias passaram a compilar “os melhores memes” sobre a tornozeleira violada, evidenciando como a própria imprensa passou a tratar o humor de rede como parte do fato político.

FOTO: REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS

Durante décadas na política, Bolsonaro sustentou-se num misto de brutalidade e deboche; ele próprio se apresentava como alguém que dizia “verdades” de forma agressivamente jocosa. Parte do bolsonarismo se alimentou justamente de um humor cruel dirigido a minorias, opositores e instituições.

É significativo que o episódio da tornozeleira inverta esse vetor. Os memes reposicionam Bolsonaro como objeto do riso, e não como produtor de piadas. Montagens o mostram encolhido enquanto Moraes ajusta a tornozeleira (na onda de memes que acompanhou a decretação do uso do equipamento), paródias o comparam a ladrões de quinta categoria que tentam burlar alarmes com táticas improvisadas, e outros lembram episódios de negligência durante a pandemia para sugerir que a dor agora recai sobre ele. Há, claramente, uma dimensão de alívio. Depois de anos de violência retórica, ameaças golpistas e ataques às instituições, a imagem de um ex-presidente violando a própria tornozeleira com um ferro de solda parece oferecer um tipo de justiça simbólica que o rito jurídico, por si só, não consegue produzir.

Mas o riso é ambivalente. Ele pode, ao mesmo tempo, rebaixar a aura de um líder autoritário e banalizar a gravidade dos crimes em jogo (tentativa de golpe de Estado, conspiração contra o sistema eleitoral, estímulo a atos violentos, etc.). Nessa ambiguidade, a perspectiva neomaterialista ajuda a deslocar a questão de “os memes são bons ou ruins para a democracia?” para outra: que arranjos de objetos, imagens, afetos e infraestruturas eles estabilizam ou desestabilizam? No caso da tornozeleira violada, os memes parecem contribuir para desfazer (pelo ridículo) uma imagem de força e virilidade política e para reinscrever Bolsonaro na posição de réu, de alguém submetido a dispositivos de controle e sujeito ao escárnio público.

A tentação é tratar tudo isso como um episódio pitoresco na longa novela do bolsonarismo: o ex-presidente que violou a tornozeleira “por curiosidade”, foi preso cautelarmente e rendeu uma safra inesgotável de piadas. Mas, se olharmos numa perspectiva não antropocêntrica, considerando a agência humana e não humana e as mediações produzidas em rede, então a tornozeleira, o ferro de solda, o meme, o feed, entre outros elementos, são coprodutores da política contemporânea.

Assim, ao olhar para a febre de memes sobre a tornozeleira violada de Bolsonaro como parte de uma controvérsia sociotécnica, vemos um laboratório em tempo real onde se negocia o sentido da democracia brasileira pós-golpe frustrado, com leis, tornozeleira, ferro de solda, chip, montagens e riso trabalhando juntos. Eles pertencem à mesma rede de mediações que está, aos trancos, definindo de que forma um ex-presidente condenado pelo STF por tentativa de golpe entra na história: como mártir injustiçado, como ditador fracassado ou como bufão de tornozeleira violada. Se considerarmos que a política também se decide nesse nível aparentemente banal de gifs e montagens, então a tarefa crítica passa por acompanhar, com rigor e imaginação, como esses objetos participam da construção e desconstrução de mundos.

Referências

Chagas, v. (2017). A política dos memes e os memes da política: Proposta metodológica de análise de conteúdo de memes dos debates eleitorais de 2014. Intexto, (38), 173-196.

Chagas, V. (2018). A febre dos memes de política. Revista FAMECOS, 25(1), 1-26.

Shifman, L. (2014). Memes in digital culture. MIT Press.