Pensatas

Os impactos dos resumos da IA do Google no jornalismo

Pensata 404 – Edição 18 – por Ellen Guerra

Nossas pensatas são discutidas no Lab 404, mas refletem a opinião pessoal.


No último dia 26 de abril, o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), órgão responsável por regular a concorrência no Brasil, iniciou um processo administrativo contra o Google para investigar os impactos dos resumos gerados por inteligência artificial sobre os veículos jornalísticos brasileiros. O centro da discussão é o uso de conteúdo produzido pela imprensa sem remuneração adequada às empresas de mídia.

Desde agosto de 2024, usuários brasileiros passaram a visualizar, no buscador do Google, respostas sintetizadas por inteligência artificial no topo da página. Os chamados AI Overviews apresentam informações resumidas em tópicos curtos, enquanto os links para os sites originais aparecem em tamanho reduzido e com menor destaque visual. À primeira vista, a funcionalidade parece apenas uma evolução do sistema de busca, mas, na prática, ela altera a dinâmica de circulação da informação na internet, especialmente para o jornalismo.

Esses resumos gerados por IA impactam diretamente o tráfego do jornalismo. Considerando que 65% dos usuários de internet consomem algum tipo de notícia diariamente, segundo o painel TIC Integridade da Informação 2025, e que os sites de busca são uma das principais portas de acesso à informação, 30,2% dos brasileiros utilizam esses espaços para se informar, segundo a pesquisa Desigualdades Informativas 2025, do Aláfia Lab.

Quando a própria plataforma entrega respostas prontas, sem necessidade de clique, o fluxo de acesso aos veículos jornalísticos diminui drasticamente. Esse fenômeno é chamado de “zero clique”, quando o usuário consome a informação sem sair da plataforma. Nesse modelo, o Google se desloca de um intermediário entre leitores e produtores de conteúdo para se tornar o destino final da informação. O efeito dessa mudança é econômico, político e estrutural.

Diversos veículos já associam quedas de audiência à implementação dos resumos de IA. Pesquisa do Pew Research Center mostrou que usuários expostos aos resumos têm menos probabilidade de clicar em links externos. Em buscas tradicionais, a taxa de cliques gira em torno de 15%, quando há respostas geradas por IA, o número cai para 8%.

No jornalismo, tráfego significa receita. Visualizações, tempo de permanência e acessos são métricas importantes para monetização em ambientes digitais. Um levantamento da empresa Authoritas aponta quedas de até 20% no tráfego de sites jornalísticos após a implementação dos resumos de IA. Segundo a pesquisa, páginas que não apareciam nos resumos registravam taxas de acesso de até 21,4%, ao serem incluídas nos resumos de IA, tiveram suas taxas reduzidas para 8,93%.

Mas a discussão levantada pelo CADE vai além da perda de audiência. O problema central está na captura de valor produzida pelas plataformas. A conselheira do CADE, Camila Cabral Pires Alves, argumenta que o Google internaliza o valor informativo produzido por terceiros, retém a atenção do usuário dentro da própria plataforma e reduz a capacidade econômica dos veículos de se apropriarem desse valor. Em outras palavras, o conteúdo jornalístico funciona como matéria-prima para alimentar sistemas de IA, enquanto o retorno para quem produz a informação se torna cada vez menor.

A questão é estrutural. Informação é um dos bens imateriais de maior valor no ambiente digital. Diferentemente de outros produtos, ela também pode ser entendida como um “bem de experiência”, seu valor é percebido a partir do consumo. Quando plataformas passam a condensar, resumir e redistribuir conteúdos jornalísticos dentro de seus próprios ambientes, elas deixam não apenas de organizar informações disponíveis na web, mas também passam a disputar diretamente o papel do jornalismo como mediador da realidade.

Nesse cenário, acordos recentes entre empresas de tecnologia e grupos de mídia revelam outro movimento importante. No Brasil, os jornais Folha de S. Paulo e Estadão firmaram parcerias com o Google para utilização de conteúdos no treinamento e aprimoramento do Gemini, sistema de IA generativa da empresa. Internacionalmente, a Meta fechou acordos com veículos como CNN, Fox News e Le Monde para alimentar seus sistemas de inteligência artificial. Esses acordos apontam para uma dependência já existente, onde o jornalismo passa a circular dentro de sistemas cada vez mais opacos, mediados por plataformas privadas que controlam distribuição e monetização.

Há ainda outro problema central: a ampliação dos riscos de desinformação. Em uma rápida experiência de checagem dentro do próprio sistema de IA do Google, pesquisei uma notícia falsa e encontrei não apenas conteúdos desinformativos ranqueados entre os resultados, mas também resumos produzidos pela própria IA que ampliavam a informação falsa. O problema, portanto, não é apenas a sustentabilidade dos negócios de mídia, mas também uma questão da integridade da informação.

Ao mesmo tempo em que reduzem o alcance dos veículos jornalísticos, os resumos de IA passam a disputar autoridade narrativa sobre os acontecimentos. Não apenas distribuem informação, elas condensam e reorganizam conteúdos produzidos por terceiros dentro de ambientes fechados, orientados por lógicas comerciais e algoritmos pouco transparentes.

O debate iniciado pelo CADE é importante justamente porque reconhece que a discussão não se resume à perda de tráfego. Trata-se de compreender como plataformas digitais transformam o jornalismo em insumo para retenção de atenção, coleta de dados e fortalecimento de poder econômico. E, nesse processo, modificam não apenas a sustentabilidade financeira dos veículos, mas também o próprio valor social da informação jornalística.