Pensata 404 – Edição 22 – por Alessandra Olinda
Nossas pensatas são discutidas no Lab404, mas refletem a opinião pessoal.
Todo ano, perto do aniversário, minha avó Detinha põe o vestido bom e vai ao banco provar que está viva. Tem 96 anos. Mostra o rosto e o RG, assina onde mandam e volta para casa. Não precisaria, pois desde 2023 o INSS faz a prova sozinho, vasculhando as bases de dados atrás de um rastro dela como acesso ao Meu INSS com selo ouro, consignado com biometria, vacina, consulta no SUS ou voto. Achou um, ela existe. Não achou, ela é convocada.
O problema é que Detinha não deixa muitos rastros. Não vota, porque depois dos 70 é facultativo. Não faz consignado, porque tem 96 anos e algum juízo. Não mexe no aplicativo do governo e sai pouco de casa. Para o banco de dados ela é indistinguível de uma senhora que morreu em silêncio. Ela sabe que quem não emite um sinal, some. Eu sei também. Enquanto ela espera na fila do banco para provar que existe diante de uma pessoa, eu abro o LinkedIn para fazer o mesmo diante de um algoritmo e, em nome dele, julgar quem mais parece gente.
Tem um post de executivo sobre liderança que julgo não ser escrito por nenhuma pessoa. Abro o menu de três pontos e aperto “seems like AI slop”, opção listada ao lado de spam e desinformação. O post some, mas só da minha tela. Quem publicou vai receber um recado no painel de métricas sem saber que fui eu: “alguns membros disseram que este post parece IA”. Um milhão de pessoas fizeram o mesmo nas duas primeiras semanas que a ferramenta estava disponível. O LinkedIn avisa que nenhum clique isolado decide o alcance de nada; mas quando comemorou que os posts classificados como “slop” perderam 40% das visualizações, precisou esclarecer que o mérito era dos classificadores novos, não dos cliques na opção anti-IA.
Detinha avança um lugar na fila do banco. Eu vou para o Pinterest, onde o botão nem finge ser denúncia. Chama-se “ver menos” e apenas ajusta o meu feed. Em outro menu da plataforma é possível encontrar as configurações se as minhas imagens alimentam o modelo próprio de IA, treinado em 500 milhões de linhas de Pins públicos. Diferente do tom policialesco do LinkedIn, o Substack emite um laudo. Acesso um artigo e peço um exame que estima quanto do texto foi escrito com máquina que só eu vejo o resultado, mas o autor pode ter desligado essa configuração na hora de publicar o artigo. No Medium, que inventou isso em 2024, a denúncia existe, mas a pena é só de circulação e a queixa mais comum é que nada acontece. A própria empresa admite que gente enxerga texto de máquina melhor que qualquer software, mas entrega o veredito ao software mesmo assim.
Seres humanos vivos são capazes de julgar o conteúdo: denunciar, examinar ou deletar. Bots também podem operar com cliques nesses botões a depender da intenção de quem programa. Mas nenhum desses botões em si julga alguém, apenas regulam o que nós vemos. Do outro lado da tela ninguém é declarado humano ou vivo; só menos suspeito, por enquanto. A equipe do LinkedIn disse com todas as letras que “slop” é difícil de definir, que a definição muda e que o botão serve para calibrar modelos próprios de IA. Cada indignação vira rótulo, cada rótulo vira parâmetro e cada parâmetro ensina o próximo texto sintético a não disparar o alarme. Quem comprova existência somos nós, usuários. Quem fica com a prova de vida é ela, a plataforma.
Chega a vez de Detinha na fila do banco. Se o cruzamento do INSS tivesse falhado, existiria uma carta, um prazo de sessenta dias e a obrigação, escrita na portaria, de alguém ir até a casa dela. Uma pessoa autorizada a olhar na cara de uma senhora de 96 anos e anotar: viva. A moça do caixa olha, confere e carimba. Com as plataformas ninguém bate à porta e nem verifica informações antes de carimbar a queixa. Guardo o celular. Detinha dobra o comprovante e põe na bolsa. É o único papel dessa história que prova alguma coisa.
Alessandra Olinda é socióloga e jornalista, mestra em comunicação e práticas de consumo, doutoranda em comunicação e cultura contemporâneas no PósCom/Facom/UFBA e integrante do Lab404 – Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço. Também trabalha com conscientização para a segurança da informação. Este ensaio emerge de conversas entre pesquisadora e claude.ai, analisando o que a própria ferramenta entende como ‘slop’.